Andarilho das paredes



Se alguém está lendo isto então algo saiu errado e não consegui escapar. É tão engraçado; sabe aquelas histórias que ouvimos quando crianças sobre bicho-papão e outras coisas mais; nunca poderíamos sequer supor que tivesse algum fundo verídico, mas alguém já disse que toda história tem um fundo verdadeiro, provavelmente o que está acontecendo comigo agora já tenha ocorrido com outros também e provavelmente não haja testemunhas disso. Algo me diz que eu serei mais uma vítima.

Perdão por minha caligrafia trêmula; estou lutando contra algo que jamais pensei que fosse encontrar, e para ser bem franco, ainda não sei o que é, estou com meus nervos à flor da pele e cada fibra do meu corpo diz que a única coisa que posso fazer para vencer é esse relato visando ajudar outros, cheguei ao fim da linha.

Vocês podem pensar que estou muito calmo para alguém que está prestes a m...
Já desisti de me enganar e isso me trouxe alguma paz ao menos por alguns momentos, porém, me recuso a escrever a palavra que representa meu futuro certo, portanto, serei breve.
Tudo o que importa dizer é que estou sendo perseguido por algo ou alguma coisa que puxa tudo o que encontra para dentro das paredes, sei que parece loucura total, mas vi, desde que cheguei aqui nesta que parece ser uma vila antiga da época da escravidão, pedaços de objetos parcialmente fundidos as paredes de quase todos os lugares por onde passei.

Meu carro sofreu uma estranha pane elétrica na estrada perto desse lugar, ele simplesmente apagou por completo e parou de funcionar misteriosamente; por isso tive de andar em busca de ajuda e vim até aqui nesta vila para procurar algum mecânico, mas o que encontrei foi algo completamente insano. Nesse momento em que escrevo, estou trancafiado voluntariamente, escondido, num cômodo totalmente reduzido, iluminado apenas pela luz de uma vela que encontrei junto com os pertences de outras pessoas espalhados por todo o lugar, foi assim também que encontrei o papel e a caneta que uso agora.

Creio que todas estas coisas pertenceram a outros que assim como eu acabaram vindo parar aqui nesse lugar, agora sei que foram atraídos para cá pelo monstro que habita nesse solo. O lugar me parece uma cidade história parecida com o centro histórico de Paraty, RJ, só que completamente esquecida pelo mundo, há muito capim alto nas casas abandonadas e destruídas pelo tempo, mas o que vivia aqui e ainda esta nessas paredes sobreviveu à passagem do tempo e provavelmente com muita fome decidiu me atrair para essa armadilha infernal de alguma forma que desconheço.

Encontrei pertences de homens, mulheres e crianças, mas não vi uma única alma vivente desde que cheguei; somente, murmúrios e rosnados; assobios, sussurros e choramingos advindos das paredes. Nada mais.

Em certa altura de minha incursão por esta vila fantasma acabei entrando na casa onde ainda agora estou, foi meu maior erro, mas pensei ter visto uma pessoa; uma criança, mas não era humano, pelo contrário, era a criatura. Ele saiu da parede como uma sombra sinistra, correu e saltou sobre mim tão rápido que o medo foi o meu aliado, eu cai ao chão. A coisa voltou para a parede e braços de todos os tamanhos brotaram da mesma, tentaram me puxar, mas eu fugi; cometi o erro de olhar para aquilo e vi faces atormentadas de pessoas brotando e sumindo.

Tenho certeza que aquela visão se colou na minha retina e jamais vai sair, pessoas aparentemente aprisionadas nas paredes tentavam se libertar a todo custo e empurravam-na lamuriosamente como que tentando romper uma barreira prisional. A parede mais parecia ser feita de plástico ou algo assim; ela parecia que ia se rasgar e despejar hordas e mais hordas do que quer que estivesse do outro lado.

Como já disse, fugi como uma criança e cheguei num outro cômodo, não quero descrever o que vi, foi demais para mim, só posso dizer que agora sei a sensação de quem presenciou o holocausto, nas paredes desse lugar haviam inscrições feitas com o que parecia ser batom ou algum tipo de cosmético; provavelmente uma mulher desesperada tenha deixado a mensagem antes de ser encontrada pela coisa. Estava escrito assim:

“ Fujam! Andarilho das paredes!"

Tal inscrição não fazia o menor sentido para mim, mas não importava porque aquilo era algo tão ruim que cada fibra do meu corpo estava sentindo seu pavor. Passamos toda a vida tentando ou negando certas coisas, como a existência do mal ou do inferno, por exemplo, mas certas horas, creio, que os portões dele tocam a terra e coisas terríveis, estranhas e nefastas como esta acontecem; seja o que for que está andando pelas paredes e dominando esta vila fantasma não é e nunca foi deste mundo.

Por fim despeço-me sem saber ao certo o que vai acontecer comigo de agora em diante, mas ouço novamente um barulho que preferia nunca ter escutado, sei que a criatura ou criaturas estão vindo, já estão muito perto e vou me preparar para o fim.

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